Máquina do tempo

TrilhosTodo mundo tem uma máquina do tempo.

A da Júlia era o metrô. Sempre que ia de casa para o trabalho e do trabalho pra casa ela contava os tetec tetec, tetec tetec das rodas de ferro passando pelas junções dos trilhos. Aquilo era música, encantava, o tempo fluía diferente. Tetec tetec. De fim-de-semana, ela fazia passeios de metrô. Conhecia todas as estações. De trem também. Viu a lugares longínquos e diferentes, passando por viadutos, por casarões velhos de tijolinho aparente reclamados pelos sem-teto, por paredes e mais paredes subterrâneas de concreto. Tetec tetec. O assobio dos freios, as curvas, o apito das portas, as pessoas indo e vindo, o cheiro de graxa, o frio úmido e cavernoso das estações. Tetec tetec. Hora de sair, já? Acabei de entrar…

A do Monteiro era o violão. Ouvia uma música de manhã, pensava em tirá-la, colocava o violão no colo e partia. G – Am7. Encrencava num acorde, entortava os dedos, tentava achar uma alternativa, capotraste, aperta aqui, afina ali, bossa nova e rock’n’roll. G/B – G. Pega a palheta, solta a palheta, dedilha, solo, pestana — amava as pestanas, incompreendidíssimas e injustiçadas, fundamentais ao separar os persistentes dos desistentes, os músicos dos aventureiros. C – C#º – D – D#º. Diminutas, maiores, menores, com sétima, quarta, baixo em sol, fá sustenido, mi. Acordes que riam, choravam, pensavam. E que fome, hora do almoço, já? Janta!? Acabei de acordar…

A da Clara era a cozinha. Não era seu trabalho, nem de longe. Era um momento de concentração. Toc toc toc toc. Começava a picar cebolinha, salsinha, coentro, cebola, cenoura, salsão e as pessoas fora daquele recinto andavam mais rápido, ele mais absorto, elas menos reais, mais borradas, menos audíveis. Toc toc toc toc. Cada parte da bandeira irlandesa de um mirepoix era um processo meticulosamente atemporal, um duelo da faca e da tábua de corte com a geometria pelo cubinho perfeito. Toc toc toc toc. Os cheiros se misturam fora da panela, esperando a vez de entrar no fogo. As carnes, tinha um carinho particular com elas, com os veios de gordura, com as fibras. Afiava a faca com o cuidado de não machucar a carne, mas cortar com precisão cirúrgica. Fogo baixo, pro sabor ficar mais impregnado. Tshhhhhh. Azeite, alho, cebola. Tshhhhhh. Hmmm, isso tá com uma cara ótima! Mas eu acabei de começar…

E as do Janja eram as putas. As feias melhores que as bonitas. Menos frescas, mais histórias, mais bizarras, mais histórias bizarras. Nhec nhec nhec. As horas e horas dirigindo o caminhão eram normais. Passavam no mesmo ritmo. Era trabalho, não amava, mas pagava as contas. Mas a hora da parada noturna era a mais esperada. Quanto menor a cidade, melhor. Não era nem tanto pelo sexo. Claro que era pelo sexo, quer mentir pra quem? Mas pelas histórias também, uns papos que só ele conseguia arrancar daquelas mulheres. Nhec nhec nhec. Por onde andaram, como chegaram ali, como era a vida delas fora daquele quartinho mofado, longe daquela cama dura. Umas eram bem normais, vida dura de gente que vive com o que pode. Outras fizeram coisas que deixava até o Janja arrepiado. Nhec nhec nhec. Mas ele não julgava. Curtia. E depois do torpor do sexo vinha aquela embriaguez do sono bom e de repente o sol raiava pela janela e era hora de voltar pra boleia. Mas eu acabei de deitar…

Não é um DeLorean, uma Tardis, uma cabine telefônica, é ainda mais simples que tudo isso, às vezes envolvendo muito pouca ciência e muito mais intuição e do primeiro ao sexto sentido. Só que a gente viaja pro futuro, a uma velocidade diferente dos outros. De repente o tempo se estica, se espreme, se apressa, ultrapassa o relógio, zombando dele. Horas, minutos, segundos: horizontes, momentos, sensações. É o que faz 8s, olhando meio de lado, meio de viés, meio torto, relativizando, parecerem infinitas sensações.

Trazendo Chicago pra casa – Deep-dish pizza

Ano passado, ao conhecer Chicago, conheci também uma pizza típica local, a chamada deep-dish pizza, que comi em Chicago e em St. Louis, na Pi. As duas são sensacionais! E como eu faço mais o estilo “eat ALL the pizzas” do que o mimimi de “pizza tem que ser tradicional”, não vou entrar no mérito e vou dar a receita. É diferente, é gostoso e vale a pena tentar fazer (não é difícil, primeira massa que eu fiz na minha vida e deu certinho). Das receitas de massa que eu procurei essa parecia ser bem parecida e os ingredientes não eram bizarros e difíceis de encontrar aqui. O resultado foi uma massa grossa, mas bem leve e crocante.

 

Chicago deep dish pizza 

Massa:

3 xícaras e 1/4 de farinha de trigo
1/2 xícara de fubá
1 colher de sopa e 1/2 de sal 
2 colheres de sopa de açúcar
1 tablete de fermento biológico
1 xícara e 1/4 de água morna
1/2 xícara de azeite

Desfaça o fermento em 1/4 de xícara de água quente e 1/4 de xícara de farinha e açúcar em um pote e deixe em um lugar à temperatura ambiente de 15 a 20 minutos, depois adicione o resto dos ingredientes, misturando bem e deixe descansar coberto por 1h30min e dobrar de tamanho. Sove até obter a textura correta e vá adicionando um pouco mais de farinha até não ficar grudenta. Divida em duas bolas e abra para fazer as pizzas (de mais ou menos 30cm de diâmetro).

A deep dish é um estilo diferente da pizza que a gente tá acostumado. Na hora de montar, use uma assadeira que tenha a borda mais alta (parecida com as da pizza hut), besunte ela toda com bastante manteiga e cubra com massa até as bordas, pra fazer um prato fundo, deixando a massa com mais ou menos 1 cm de espessura, pq ela ainda dá uma engrossadinha no forno. Depois coloque o queijo, os recheios e cubra generosamente com o molho. Asse a 200ºC (de baixo a médio) por uns 30 minutos, quando a borda dourar, retire e sirva.

Como o molho é uma das partes principais da pizza, faça um molho bem pedaçudo e bem temperado (a receita tá lá embaixo). De recheio, um que combina bastante e fica bem parecido com o sabor das de lá é usar cogumelos paris (frescos), pimentão (pimenta cambuci é mais suave e mais gostosa) e bastante queijo (usei uma mistura de queijo mussarela com prato, moídos) como base. Lá eles geralmente usam uma proteína de sabor marcante, como linguiça. Usei peito de peru, que deu uma sumida, mas ficou gostoso. Talvez com calabresa fique gostoso, queijo gorgonzola e provolone misturado com mussarela também.

Molho:

1 lata de tomate pelado (sensualizando na cozinha, pq não?)
1 dente de alho picadinho
1 cebola picada do jeito que preferir (se for fresco com cebola, faz bem picadinha, se curtir deixa maior pra dar mais textura)
1 colher de sopa de azeite
1 colher de sopa de manjerona desidratada (era a que tinha, a fresca deve ficar ótima também)
1 colher de sopa de cebolinha desidratada (idem)
1 colher de sopa de orégano
Sal e açúcar a gosto 

Refogue a cebola e o alho no azeite e coloca a lata de tomate pelado, amassando os tomates, sem triturar muito pra ficar bem pedaçudo. Adicione os temperos misturando bem e ajustando o sal. Se estiver ácido, coloque um pouco de açúcar. Essa quantidade dá pra cobrir uma pizza.

 

Obs.: A receita da massa adaptei daqui. Confesso que fiquei com medo da massa ficar mal cozida no meio, mas fazendo no forno baixo ela cozinha direitinho. A receita do molho é minha, inventei com o que tinha em casa, não se limite a ela. Nham! :9

Como me tornei tradutor

Foi sem querer. Em 1999, me mudei pra Brasília porque meu pai tinha arrumado um trabalho lá. Tinha acabado de acabar o terceiro colegial (era assim que chamava na época, blz?) e estava certo que iria prestar faculdade de música na UnB. Era uma prova prática de dois dias, mais o vestibular normal, cuja nota de corte era das mais baixas. No ano anterior eu já havia me preparado com uma professora de violão pra tirar as peças necessárias, mas nada muito aprofundado.

Cheguei no local da prova, na faculdade de música, meio nervoso, com meu violão e foi um tapa na cara atrás do outro. Toquei as peças que tinha que tocar tranquilamente, havia estudado, foi tranquilo. Mas na parte de leitura rítmica (a examinadora colocava uma partitura na minha frente e pedia pra eu ler o ritmo) e na “leitura dinâmica” de partitura (colocava outra partitura na minha frente e falava: toca) eu me dei MUITO MAL. Não era bom o bastante pra ler uma partitura de bate-pronto. Não era fluente naquilo.

Segundo dia de prova, prova teórica. Sento num auditório com mais um bando de gente, um cara lá na frente fala: “escrevam na partitura o que eu vou tocar aqui no piano. Tomem essas notas de referência…” Olhei pro papel, olhei pro cara e basicamente comecei a desenhar bolinhas pretas nas 5 linhas da partitura. Saí com olhos marejados de lá pq sabia que não precisava nem esperar o resultado.

Semanas antes, no momento do preenchimento da ficha de inscrição no vestibular, li que se eu fosse me candidatar para algum curso que tivesse prova prática, era necessário escolher uma segunda opção no caso (por mais distante que pudesse parecer pra mim naquele momento) de eu não passar na prova prática. Peguei o manual e comecei a folhear a parte de oferta de cursos. Parei em tradução. Não pesquisei como era o mercado, não estudei a relação candidato/vaga, olhei pra ficha e assinalei a segunda opção.

Depois do fiasco na prova prática, fiz o vestibular, sem cursinho nem nada, e acabei ficando em 16º lugar. Eram 13 vagas. Nenhum desistente. Quatro meses de cursinho e tentei de novo no meio do ano: 4º lugar, 26 vagas. ¬¬

A partir dali foi paixão imediata. Eu podia estudar a fundo uma língua pela qual era apaixonado, o inglês, e aprender uma arte que se mostrava cada vez mais versátil a cada matéria nova ou texto que eu estudava. Da UnB me transferi pra Unibero em São Paulo porque meus pais já haviam voltado e eu estava com saudades da terrinha. E também porque tinham um curso de interpretação simultânea, que era uma área que me interessava muito.

Hoje já traduzi três jogos, estou indo pro meu terceiro livro infantil, fora os inúmeros eventos como intérprete.

Meus violões, guitarras, baixo e ukulele fazem parte da minha vida tanto quanto o inglês, francês, espanhol e português, só não tenho bacharelado neles.

Feliz dia do tradutor!

Rede tailandesa

Faz um tempinho já, eu entrei na Etsy pra fuçar e achei uma rede, dessas de curtir uma preguiça, que era feita por uma moça tailandesa. A rede era lindíssima, com vários detalhes legais e bem “tailandesa” mesmo. Pasmem, custava uns 15 dólares. Achei uma pechincha e nem pensei duas vezes. Já que tava mudando pra um apê com quintal e que já tem até os ganchos de rede, saquei o cartão de crédito e fiz meu pedido.
Só que o tempo foi passando e nada de eu ter uma resposta, número de rastreio de pedido, nada. Mandei um email, nada. Mandei dois, nada ainda. Aí mandei o terceiro e a resposta que eu recebi foi a seguinte:

Hi Felipe,

 

I am sorry that I have not replied to your other emails. Things have been very bad here in Thailand, especially my hometown because of the flooding. Many people have died and many schools have to close.

 

The supplier where I get my materials is flooded, and I cannot get the material to make this kind of hammock. I refunded your money 100% now, so please accept my apology. My internet was out for a while too. Sorry for this. Please don’t be angry at me. I hope you see the refund in your PayPal account now.

 

Thank you

 

Soonatti

Claro que eu não ia ficar bravo. É uma situação que a gente vê aqui no Brasil a torto e a direito e vira e mexe tem arrecadação de alimentos pras vítimas das enchentes. Quando as enchentes são mais tranquilas, um monte de gente perde tudo o que tem e tem que sair da própria casa.

Respondi que quando ela tivesse de pé e pudesse fazer as redes de novo que eu indicaria pra todo mundo que eu pudesse, pra ela ter uma boa demanda e poder se sustentar. Como não são todos os modelos que ficaram prejudicados, ela tem alguns a oferecer.

A Soonatti aprendeu a fazer as redes com os pais, que têm uma lojinha na Tailândia. Ela resolveu aproveitar a internet e oferecer esse trabalho pra outros países. Vai lá na lojinha dela na Etsy e vê se interessa. Eu vou comprar uma, não só porque quero ajudar, mas porque gostei do trabalho dela.

Lollapalooza 2011

Foi uma baita viagem. Como toda viagem, com altos bem altos e baixos bem baixos. Acho que nada ficou ali no meio, no equilíbrio. Mas como eu já uso o twitter como válvula de escape e acho que é besteira registrar o que foi ruim, prefiro comentar o que foi legal de viajar zentos km pra assistir uma banda que eu curto pra caralho.

Lá pelo final de 2009, tinha acabado de voltar da minha primeira viagem aos Estados Unidos. Tinha programado ir a NY, San Diego e San Francisco e algumas semanas antes de ir resolvi caçar algum show — afinal, isso lá não falta — e acabei encontrando e comprando ingressos pra um show do Pearl Jam na Filadélfia. Foi um dos melhores shows que eu assisti na vida, rendeu uma das melhores histórias também (que um dia eu conto aqui) e me deixou com vontade de mais. Depois de voltar, comentei com um amigo meu que no ano seguinte iria ver um show do Foo Fighters, nem que precisasse ir aonde eles fossem tocar. Em 2010 infelizmente não deu, mas em 2011 calhou de eles tocarem no Lollapalooza, um festival que sempre foi bem falado desde que eu me conheço por roqueiro. \m/

Resumindo, comprei ingressos, reservei passagens e hotel e fui, pra ver Foo Fighters e outras bandas que iam tocar lá. Dos que assisti e que passei a gostar e admirar mais: OK Go, Two door cinema club, Mayer Hawthorne and The County, Friendly Fires, Walk the moon, Girl Talk, Arctic Monkeys e, óbvio, Foo Fighters, que fez o show mais foda que eu já presenciei na vida.

Mesmo assim, não foi quase nada, o lineup é extenso pra caramba e a quantidade de show simultâneo não é brincadeira. O Grant Park é BEM grande, e de um palco num canto até o palco do outro canto devia levar uns 15 a 20 minutos caminhando, sem exageros. Minhas bolhas e calos no pé tão aí pra não me deixar mentir!

Os banheiros químicos eram bem utilizáveis, tinham uma fila de 5, 6 pessoas e não ficavam sobre uma poça de lama de esgoto, como rolou no SWU do ano passado. E eram limpos com frequência. Até demais. Explico: bexiga aperta, vou lá no banheiro dar uma mijadinha e pego um que tá livre, sem fila e tal. Claro, como não? Só que ele tava livre e sem fila porque o fulano da limpeza estava passando com o aspirador de… dejetos. E quando ele veio, deu um puta chute na porta e tentou abrir. Minha primeira reação foi gritar — em bom português, pq nessas horas não há poliglotismo que resista — PERAÊ!

Comer era tranquilo também, se vc não se importa com o junkfoodismo que impera por lá. De mais natureba eu achei uns dumplings de edamame que estavam uma delícia. Não peguei fila, mas ia fora do horário da janta dos nativos e acho que me dei bem nessa. Tinha fome toda hora e meu fuso horário estava uma beleza, ou seja…

Ah, a gente ganhava vários brindes legais… No único dia que cheguei cedo peguei um “”wayfarer”” — era de plasticão, mas útil se vc não quer botar o seu Ray Ban no jogo e arriscar perder, cair, entortar, etc. Também ganhei balinhas e protetor labial. Protetor solar, cadê? Mas tudo bem, eu levei.

O sol curte um rock também, viu? Só deixou o Lolla em paz no último dia, dando lugar a uma tempestade das boas, que atrasou o show do Arctic Monkeys e ameaçou atrasar o do Foo Fighters. Aliás, uma das coisas que tornou esse show especial foi a chuva. Quando o Foo Fighters entrou no palco, todo mundo já estava encharcado, enlameado, naquele estado de “graça” pela tempestade que rolou antes do show do Arctic Monkeys. Começaram a tocar e de repente ela volta, mais forte. E eles não param. Não param. Continuam tocando, mandando ver e aí vem o Dave Grohl e fala que não vão parar, a chuva que se lasque. E manda ver rock’n’roll atrás de rock’n’roll sem parar um segundo.

Em determinado momento, Dave (meu bro) desce do palco e começa a andar por uma abertura que tinha bem no meio da galera. Aí fica sentado na grade (até aí eu acompanhava tudo pelo telão). De repente, algo se ilumina uns 5 metros à minha direita, e lá estava o digníssimo, com a DG335 azul aparecendo. Só vi o cabelo e a ponta da guitarra, mas valeu viu. Como valeu.

“Tonight was fucking fucking” Grohl, Dave.

 

Ouvindo música

Não sei se é só comigo. Duvido que seja, na verdade. Mas eu tenho uma maneira diferente da maioria pra se relacionar com música. Música tem um papel importantíssimo na minha vida, porque eu acredito piamente que me ajudou a desenvolver certas partes do meu cérebro e da minha personalidade que seriam certamente mais… “pobres” — digamos — do que são hoje.

Mesmo assim, eu acho que ouço música de um jeito diferente. A maioria delas (as que eu gosto, principalmente) mexe MUITO comigo. Mas não é algo que transpareça. Exemplo: saiu o CD novo do Foo Fighters. Comprei, botei pra tocar e entrei em transe. Não canto, não danço, não faço microfone com caneta, não faço \m/ com os dedos. Só ouço.

E dá pra transportar esse exemplo pra outras situações. Como um show, um bar com música ao vivo… Tenho um pouco de birra de show ao vivo. Óbvio que é muito legal ver o artista que se curte tocando ao vivo. Mas eu quero ficar na minha, ouvindo a música, curtindo aquilo lá sem aquele bando de gente mal-educada pulando e se empurrando e desrespeitando o personal space alheio. Não sei se é pelo fato de eu tocar, gostar e conhecer guitarra, baixo e (às vezes) cantar, mas eu “curto” essas situações de uma maneira que deve parecer bizarra diferente pras pessoas que me cercam. Eu preferiria muito mais ficar absolutamente quieto — como fico, na maioria das vezes.

Sei lá, é minha maneira de apreciar uma música e um músico. Eu olho e vejo como o cara tá tocando, cantando, batucando; que acorde ele tá fazendo, o tipo de dedilhado, batida; o instrumento que ele tá usando, o jeito que fulano grita no microfone, sacode a guitarra, pisa nos pedais; que pedais ele tem, quais ele realmente usa… Milhares de pequenos detalhes que eu nem sei se outras pessoas observam. E eu desligo completamente por fora. Desligo de tal forma que se alguém falar comigo é capaz de eu não ouvir uma palavra. Eu tô ali, dentro de mim, curtindo a música que tá tocando. E de fora, alguém olhando pra mim invariavelmente diz: “Você não tá gostando?”.

Mas por dentro eu vibro DEMAIS. Acho que é isso que dizem que é ser introspectivo.

Feedback

A primeira sessão do segundo dia foi tensa. Dentre os oradores, a maioria tinha o inglês BEM ruim. De não dar pra identificar mais do que duas palavras numa frase de 30. Estrutura da língua original transplantada pro inglês, velocidade de leitura, assunto bizarro, tudo contribuiu pra um delivery bem aquém do ideal da minha parte. Sem nenhum texto de apoio, tudo pra ser uma tragédia. Pra piorar, quando o inglês não era surreal, era surrealmente rápido (I’d guess NY). Ok, vem a pausa do coffee break, enquanto isso um colega do espanhol (que pegava relay da cabine de inglês e de quem a gente pegava relay)* vem me dar uns toques.

Já havíamos conversado fora da cabine, havia uma abertura para ele me dar uns toques, até pelo conteúdo da conversa prévia e pelo fato de ele ter uns 20 anos de experiência e eu modestos 3, 4.

Aí ele começou a falar que achava meu timbre de voz muito bom, minha dicção boa, muita clareza na minha fala, muita calma, MAS que eu dava muita pausa, que precisava aprender a “dosar” o texto, diminuir as pausas mesmo que elas viessem do orador.

Sei lá, eu tendo a respeitar quem tem experiência e tento aprender com isso. Nesse caso foi o que eu fiz. Ouvi o que ele falou e botei em prática na segunda sessão. Tudo beeeeeeem que era uma sessão em que os falantes de inglês eram muuuuuuuito mais fluentes e faziam metade do meu trabalho por mim. Mas eu tinha uma sugestão e resolvi botar em prática, afinal o problema não era minha tradução em si, era parte do meu delivery. E foi o que fiz, dosei a fala, falava mais devagar quando o orador entrava numa pausa. Do meu lado, achei que pus em prática a sugestão dada. Mas esperei o feedback que veio entre risadas:

“Olha, Felipe, se sua intenção era calar a minha boca agora, parabéns! Retiro todas as críticas que fiz. Estava de parabéns!!”

Made my day. :D

O que você quer ser quando crescer

Sábado passado rolou um churras com jam session pra inaugurar o cafofo do Daniley. Aproveitei pra estrear a Gibson Les Paul Special que tava tinindo (e que tem um timbre que só MEU DEUS descreve) e trocar uma idéia, tomar umas cervejas. Lá pelas tantas, sei lá eu por que, alguém comenta alguma coisa dos jogos que a gente jogava quando era moleque. Jogo de computador, tudo 2D, pixelado até, etc… E concordamos numa lista dos top 3 dos jogos clássicos mais fodásticos da galera:

  1. Full throttle;
  2. The day of the tentacle;
  3. The dig.

Daí que hoje rolaram comentários com a @valivonica sobre como era um saco ficar procurando palavras no dicionário horas a fio e eu me lembrei que foi assim que eu aprendi inglês e sem querer decidi qual seria minha profissão. Porque, veja bem, eu era um moleque de 12, 13 anos. O jogo vinha com legendas em português, mas manual, livrinho de dicas, tudo era em inglês. E eu ficava possesso de não entender o que tava acontecendo no jogo. Queria saber que cacete era x, y ou z. E lia o livrinho de dicas em inglês de cabo a rabo sem entender porra nenhuma. Aí, gênio, decidi traduzir tudo. É, tudo. Por conta própria. O livrinho era pequeno, ok, mas pra um moleque ter uma idéia dessas tem que ter muito problema sério. :P

Isso realmente me ajudava no jogo e me empolgava e estimulava a continuar. Quando eu terminei o jogo e a tradução, cheguei pro meu pai e perguntei, cheio de esperanças, com a tradução escrita a lápis rabiscada no próprio livrinho: “Pai, você acha que dá pra vender isso praquele seu amigo que trabalha na Brasoft?” Ele, com toda a paciência do mundo e sem querer destruir o sonho daquela pobre criança responde: “Olha, Fê, não sei, mas vamos ver.” Não, óbvio que não deu.

Hoje, uns bons 17, 18 anos depois, já participei – ganhando muito bem pra isso – da tradução de StarCraft II, da Blizzard, CityVille e Empires & Allies (é novo), da Zynga, entre outros.

Que astronauta o quê! ;)

UPDATE 1:

Assiste esse videozinho do demo do Full Throttle que o Brunão postou no Facebook:

Me dá um trocado?

Ainda na linha viagens, lembrei hoje de NY… Como esperam que você dê gorjeta pra TUDO e pra TODOS. Acho que é o mais irritante de lá, mas é a cultura deles, ok.

Mas antes da história, um pouco de contexto: eu tenho algumas manias. Lavo a mão muitas vezes, tenho uma pequena paranóia com limpeza e higiene, até abaixo a tampa do vaso antes de dar descarga pras nojeirinhas não espirrarem pra tudo quanto é lado no banheiro. Odeio pegar em maçaneta de banheiro depois de ter acabado de lavar a mão, porque como todo mundo sabe, tem muita gente porca que não lava a mão e, né, eca.

Contexto dado, voltemos a NY. Se você é como eu, você lê algo sobre o destino da viagem antes de ir pra lá, conversa com quem já foi, pra poder se situar um pouco sobre a cultura, o que é comum de se fazer no lugar, etc. E algo que todo mundo fala dos EUA é o lance da gorjeta, que tem uma gradação e que sempre deve ser pago, mesmo não estando descrito na conta e etc.

Aí você vai a um restaurante, paga a conta, curtiu o serviço, ok, 20%. Depois você vai a um bar, faz uma tab, chega no final, paga e se o serviço foi bom, de novo 20%. Ou se vai num bar e pede umas cervejas naquele esquema deles de pagar por pedido, vai dando 1 dólar por drink (remember, always tip your bartender), blablabla. Até aí, tudo ok, tudo normal, tudo fofinho.

Mas você decide ir a um club dançar. Abre uma tab e vai tomando umas cervejas. Naturalmente, chega a hora de ir ao banheiro. E tem um cara no banheiro. Trabalhando. Distribuindo balinhas e toalhas de papel. E, naturalmente, ele espera o quê? Gorjeta. Depois de go about my business no mictório (a.k.a. mijar), eu quero lavar a mão e tchau, certo? Errado.

Nessa situação:

  1. Você lava a mão e pega uma moeda, jogando todo o trabalho de lavar a mão no lixo;
  2. Você pega o dinheiro e dá pro cara antes de lavar a mão e o cara que se vire com o fato de você ter acabado de “coçar o saco ao natural”;
  3. Você ignora o infeliz. (Porque quem foi que teve a idéia genial de colocar um cara ali?!).

Resposta número três na cabeça, amigos. Vocês até podem inventar o número “4. pega o dinheiro antes de tudo e já dá pra ele”. Mas meu cérebro não teve tempo de processar a informação porque minha bexiga estava cheia. E digo mais: na mesma noite voltei três vezes ao banheiro e não dei gorjeta. Algo me diz que o dinheiro que esse cara ganha é bem sujo…

Mi Buenos Aires querida

Uma amiga recentemente anunciou que faria sua primeira viagem ao exterior e escolheu passar uns dias em Buenos Aires. Além disso, ela me desafiou a escrever mais um post essa semana (não atualizava o blog havia meses e só essa semana já escrevi dois posts, sendo este o terceiro). Escolhi escrever sobre Buenos Aires, até pra benefício dela, já que listo aqui as sugestões do que há para se fazer lá. Adianto que não sou nenhum especialista portenho, só fui a Buenos Aires duas vezes e me diverti em ambas, seja pela companhia que levei, seja pelos lugares que visitei. Gosto de lá certamente por Buenos Aires ser uma cidade muito boêmia. Lá também dá pra encontrar muita cerveza brasileña (a InBev comprou a Quilmes e mergulhou no mercado de lá), o que não é lá um elogio, já que a Isenbeck é muito boa e a Quilmes tem lá seu encanto, apesar de normalzinha. Mas as cervejas são de litro, o que é um alento (quando estão muito geladas). O que saber:

  • À noite, divida um táxi. É barato, mas tome cuidado: ao trocar dinheiro, tente dar o valor exato ou aproximado. Ouvi muitas histórias de gente que pegou dinheiro falso com taxista de lá;
  • Use um mapa e dê as direcciones como um nativo: eles dão o nome da rua que se quer ir e o cruzamento mais próximo, para dar idéia da altura da rua que se deseja ir. Ex: Humberto 1º y Defensa (endereço da feirinha de Santelmo);
  • Tome muita água e caminhe bastante para ver a cidade. Metrô e táxi são legais, mas tudo passa muito rápido e/ou você só verá os túneis e perderá várias cenas pitorescas da cidade.
  • Não pergunte pelo metrô, mas sim pelo Subte.
  • Saber espanhol é ideal, conversando devagar dá para tentar se entender, mas os portenhos falam muito rápido. Mesmo. Uma vez perguntei se havia água gelada num mercado (agua fria), mas a moça não me entendeu. E quando entendeu disse algo como “ah, aua fria. True story! E as ruas são calles, e Florida se pronuncia assim mesmo, não Flórida (já cometi este engano, admito).
  • Se for para un boliche (uma balada), vá (bem) tarde. Os portenhos jantam tarde (e muito bem), tiram uma pestana e depois vão para os boliches. Começam a encher lá pela 1h, 2h da manhã…

O que fazer:

  • Feirinha de antiguidades de Santelmo: Tem tudo quanto é antiguidade para todos os gostos, lojas de chapéus, shows de tango, câmeras antigas. Vale a visita, mas os preços são caros mesmo com a conversão favorável para o real. O bairro não é lá muito amigável à noite, vá cedo, almoce no Desnivel e volte.
    Endereço: Plaza Dorrego, Defensa y Humberto 1º
    Horário: das 10 às 17h
  • Casa Rosada: Ela é rosada, mas mais na frente, dos lados o rosa já se foi há tempos. Mas vale uma visita a um marco importante. De quebra já dá pra emendar uma visita ao próximo ponto da lista.
    Endereço: Yrigoyen, 219
  • Diques de Puerto Madero: dá pra ir a pé da Casa Rosada e passear por lá tanto de dia quanto à noite. Os restaurantes de lá são daqueles “pra turista ver”, além de franquias famosas. Mas há alguns cafés e bares bem charmosos.
  • Sorvete no Persicco ou no Fredo: Gente, difícil descrever. Um dos melhores sorvetes artesanais que eu já tomei na vida. Tem de tudo quanto é sabor e dá vontade de voltar lá a cada cinco minutos pra provar os outros. Existe até uma discussão daquelas intermináveis sobre qual sorveteria é a melhor, Persicco ou Freddo. Tire a prova e vá nas duas!
    Endereços (há muitos outros, mas dei só dois):
    Persicco: Jerónimo Salguero, 2591;
    Freddo: Vicente López, 2008
  • Jantar no La Vestalia: Nem sei se existe ainda, mas foi um restaurante onde eu e alguns amigos fomos tão bem tratados e comemos uma comida tão maravilhosa que marcou. Cozinha mediterrânea e parrilla.
    Endereço: Thames, 1392 (Thames y José Antonio Cabrera)
    Horário: terça a domingo, 12:00 às 16:00 e das 20:00 até fechar
  • Caminito, La Bombonera (La Boca): La Boca é o bairro onde ficam o Caminito e o estádio do Boca Juniors, La Bombonera. O Caminito é uma rua museu com casas típicas de chapas coloridas. La Bombonera fica aberto para visitas quando não há jogo marcado, mas se for o caso de parar e assistir um jogo do Boca, deve ser sensacional também! O tour pelo estádio é pago. Não recomendaria ir muito tarde, pois o bairro é perigoso. Melhor ir de manhã e seguir o passeio em outros lugares.
    Endereço:
    Caminito: Travessa da Magallanes.
    La Bombonera: Brandsen 805 (caminhe cerca de 400m pela dr. Del Valle Iberlucea se vier do Caminito)
    Horário: 10 às 18h
  • Cemitério da Recoleta: Considerado um museu por conter muitas obras de arte, é mais visitado por ter também muitas personalidades enterradas lá, dentre elas, Evita Perón.
    Endereço: Junín, 1760
    Horário: 8 às 18h
  • Show de tango no Café Tortoni: A comida é muito boa e o espetáculo de tango é muito bem feito.
    Endereço: Avenida de Mayo, 825.
  • Feria de Palermo Soho, Plaza Serrano: de dia nos fins de semana há feiras de roupas e acessórios que usam o espaço dos diversos bares e danceterias que abrem à noite. Bom pra passar o final da tarde e já emendar com a noite. As feiras durante o dia têm muitas roupas e acessórios e à noite muita gente senta nas mesinhas na rua para tomar unas cervezas.
    Endereço: Jorge Luis Borges y Honduras, Plaza Serrano
  • El Ateneo: Eu sou viciado em livrarias. Mesmo às vezes não comprando nada, gosto de ver, pegar, folhear uns livros e o ambiente do Ateneo é maravilhoso. Ela fica num teatro reformado e seu espaço interno é lindo de morrer. Foi considerada a segunda livraria mais linda do mundo pelo jornal britânico The Guardian. Vale a pena nem que seja só pra olhar uns livros e tomar um café.
    Endereço: Avenida Santa Fe, 1860
    Horário: seg a qui 9h às 22h, sex e sáb 9h às 24h, dom 12h às 22h

Onde ficar: Fui duas vezes pra lá. Numa delas, fiquei na casa de um amigo no bairro de Palermo e gostei. Na outra, fiquei em um albergue no mesmo bairro e também gostei (do bairro, o albergue era uma desgraça). Na dúvida, ficaria em Palermo. :) O que NÃO fazer (em hipótese alguma, em viagem nenhuma):

  • Não sei você, mas quando eu viajo, eu quero comer a comida local, tomar a cerveja local, etc. Eu absolutamente me recuso a ir a um restaurante franqueado que possa ir no meu país a qualquer hora. Sim, estou olhando, apontando e balançando a cabeça pra você que sempre que viaja pra outro país vai comer no McDonald’s. ¬ ¬

Se estiver em dúvida sobre onde comer, há um excelente recurso para procurar restaurantes na capital argentina, o Guía Oleo.

Se a dúvida for o que visitar, consulte este Guia de viagem de Buenos Aires. Valem a visita.

Com certeza devo ter deixado algum ponto turístico, restaurante ou passeio de fora. Se você já foi a Buenos Aires e se quiser recomendar algo, os comentários estão aí.

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