Reflexões

Máquina do tempo

TrilhosTodo mundo tem uma máquina do tempo.

A da Júlia era o metrô. Sempre que ia de casa para o trabalho e do trabalho pra casa ela contava os tetec tetec, tetec tetec das rodas de ferro passando pelas junções dos trilhos. Aquilo era música, encantava, o tempo fluía diferente. Tetec tetec. De fim-de-semana, ela fazia passeios de metrô. Conhecia todas as estações. De trem também. Viu lugares longínquos e diferentes, passando por viadutos, por casarões velhos de tijolinho aparente reclamados pelos sem-teto, por paredes e mais paredes subterrâneas de concreto. Tetec tetec. O assobio dos freios, as curvas, o apito das portas, as pessoas indo e vindo, o cheiro de graxa, o frio úmido e cavernoso das estações. Tetec tetec. Hora de sair, já? Acabei de entrar…

A do Monteiro era o violão. Ouvia uma música de manhã, pensava em tirá-la, colocava o violão no colo e partia. G – Am7. Encrencava num acorde, entortava os dedos, tentava achar uma alternativa, capotraste, aperta aqui, afina ali, bossa nova e rock’n’roll. G/B – G. Pega a palheta, solta a palheta, dedilha, solo, pestana — amava as pestanas, incompreendidíssimas e injustiçadas, fundamentais ao separar os persistentes dos desistentes, os músicos dos aventureiros. C – C#º – D – D#º. Diminutas, maiores, menores, com sétima, quarta, baixo em sol, fá sustenido, mi. Acordes que riam, choravam, pensavam. E que fome, hora do almoço, já? Janta!? Acabei de acordar…

A da Clara era a cozinha. Não era seu trabalho, nem de longe. Era um momento de concentração. Toc toc toc toc. Começava a picar cebolinha, salsinha, coentro, cebola, cenoura, salsão e as pessoas fora daquele recinto andavam mais rápido, ela mais absorta, as outras menos reais, mais borradas, inaudíveis. Toc toc toc toc. Cada parte da bandeira irlandesa de um mirepoix era um processo meticulosamente atemporal, um duelo da faca e da tábua de corte com a geometria pelo cubinho perfeito. Toc toc toc toc. Os cheiros se misturam fora da panela, esperando a vez de entrar no fogo. As carnes, tinha um carinho particular com elas, com os veios de gordura, com as fibras. Afiava a faca com o cuidado de não machucar a carne, mas cortar com precisão cirúrgica. Fogo baixo, pro sabor ficar mais impregnado. Tshhhhhh. Azeite, alho, cebola. Tshhhhhh. Hmmm, isso tá com uma cara ótima! Mas eu acabei de começar…

E as do Janja eram as putas. As feias melhores que as bonitas. Menos frescas, mais histórias, mais bizarras, mais histórias bizarras. Nhec nhec nhec. As horas e horas dirigindo o caminhão eram normais. Passavam no mesmo ritmo. Era trabalho, não amava, mas pagava as contas. Mas a hora da parada noturna era a mais esperada. Quanto menor a cidade, melhor. Não era nem tanto pelo sexo. Claro que era pelo sexo, quer mentir pra quem? Mas pelas histórias também, uns papos que só ele conseguia arrancar daquelas mulheres. Nhec nhec nhec. Por onde andaram, como chegaram ali, como era a vida delas fora daquele quartinho mofado, longe daquela cama dura. Umas eram bem normais, vida dura de gente que vive com o que pode. Outras fizeram coisas que deixavam até o Janja arrepiado. Nhec nhec nhec. Mas ele não julgava. Curtia. E depois do torpor do sexo vinha aquela embriaguez do sono bom e de repente o sol raiava pela janela e era hora de voltar pra boleia. Mas eu acabei de deitar…

Não é um DeLorean, uma Tardis, uma cabine telefônica, é ainda mais simples que tudo isso, às vezes envolvendo muito pouca ciência e muito mais intuição e do primeiro ao sexto sentido. Só que a gente viaja pro futuro, a uma velocidade diferente dos outros. De repente o tempo se estica, se espreme, se apressa, ultrapassa o relógio, zombando dele. Horas, minutos, segundos: horizontes, momentos, sensações. É o que faz 8s, olhando meio de lado, meio de viés, meio torto, relativizando, parecerem infinitas sensações.

Ouvindo música

Não sei se é só comigo. Duvido que seja, na verdade. Mas eu tenho uma maneira diferente da maioria pra se relacionar com música. Música tem um papel importantíssimo na minha vida, porque eu acredito piamente que me ajudou a desenvolver certas partes do meu cérebro e da minha personalidade que seriam certamente mais… “pobres” — digamos — do que são hoje.

Mesmo assim, eu acho que ouço música de um jeito diferente. A maioria delas (as que eu gosto, principalmente) mexe MUITO comigo. Mas não é algo que transpareça. Exemplo: saiu o CD novo do Foo Fighters. Comprei, botei pra tocar e entrei em transe. Não canto, não danço, não faço microfone com caneta, não faço \m/ com os dedos. Só ouço.

E dá pra transportar esse exemplo pra outras situações. Como um show, um bar com música ao vivo… Tenho um pouco de birra de show ao vivo. Óbvio que é muito legal ver o artista que se curte tocando ao vivo. Mas eu quero ficar na minha, ouvindo a música, curtindo aquilo lá sem aquele bando de gente mal-educada pulando e se empurrando e desrespeitando o personal space alheio. Não sei se é pelo fato de eu tocar, gostar e conhecer guitarra, baixo e (às vezes) cantar, mas eu “curto” essas situações de uma maneira que deve parecer bizarra diferente pras pessoas que me cercam. Eu preferiria muito mais ficar absolutamente quieto — como fico, na maioria das vezes.

Sei lá, é minha maneira de apreciar uma música e um músico. Eu olho e vejo como o cara tá tocando, cantando, batucando; que acorde ele tá fazendo, o tipo de dedilhado, batida; o instrumento que ele tá usando, o jeito que fulano grita no microfone, sacode a guitarra, pisa nos pedais; que pedais ele tem, quais ele realmente usa… Milhares de pequenos detalhes que eu nem sei se outras pessoas observam. E eu desligo completamente por fora. Desligo de tal forma que se alguém falar comigo é capaz de eu não ouvir uma palavra. Eu tô ali, dentro de mim, curtindo a música que tá tocando. E de fora, alguém olhando pra mim invariavelmente diz: “Você não tá gostando?”.

Mas por dentro eu vibro DEMAIS. Acho que é isso que dizem que é ser introspectivo.

Trinta

Faltou um post sobre os 30 anos.

É que não foi uma mudança crítica nem traumática: “pá, dia 3 de maio, agora tenho 30 anos [mundo desabando à minha volta].”

Foi a concretização de vários momentos na vida de um fulano em constante evolução e aprendizado. Um snapshot de um instante. Um momento pra parar, olhar pra dentro de si e pensar: “Taí, você se tornou um grande cara, continue assim! [tapinha nas próprias costas e um sorriso largo e satisfeito].”

Eu gosto de mim, do Felipe de hoje, desse cara que me tornei. Os anos redondos são importantes pra gente parar e dar essa geral interna, ver se tá tudo legal e tocar o resto da vida com a certeza de que se está no rumo certo, ou pelo menos engatilhado.

E pra falar, vim, vi, venci. Agora tenho 30, e daí? É igual ter 29 com um ano a mais? É! Mas mais legal, não sei por quê. É mais redondo! =)

Pai, tá chegando?

Saudades mil

Quando eu era moleque e meus pais levavam meus irmãos e eu pra passar as férias de julho com os primos na casa do vô e da vó em Orlândia, esse era o marco do “agora tá chegando, falta muito pouco” e já começava a rolar aquela ansiedade de chegar logo e comer a comida da dona Adélia (ai, aquele bolinho de chuva), brincar na rua com os primos, lavar o alpendre da casa da vó e brincar de escorregar no sabão, andar de bicicleta pela cidade toda, acordar com os primos de madrugada pra fazer brigadeiro escondido, essas coisas de moleque…

E sempre que meu pai falava “a casa da vó ficava depois do próximo morro”, era esse morro que eu esperava aparecer, porque eu sempre sabia que ele estava mentindo. Mas esse morro era bem antes da entrada da cidade e essa ponte majestosa e gigante marcava “o último morro”.

Pensando agora, poucos lugares têm tanto significado pra mim quanto esse. Era um marco que sempre exerceu um fascínio meio inexplicável e que eu só coloquei em palavras agora, mas que sempre teve um quê de “amo esse lugar”.

Essa foto faz jus ao lugar, na minha humilde opinião.

RIP Lilica

Lilica é uma beagle que minha irmã ganhou de aniversário muitos anos atrás. Eu lembro dela pequena ainda, correndo na casa que a gente morava em Santo Amaro. Ela saía correndo pelo corredor da casa, desde a cozinha e dava a volta na sala pelo encosto das poltronas e do sofá. A Lilica já subiu em cima da mesa numa ceia de natal ou fim de ano pra comer quase metade de um peru e passar mal depois. Já quase engoliu plástico que protegia o presunto porque tava com gosto. Já pegou carrapato, correu atrás de rato… Ela foi atropelada depois de escapar pra rua, quebrou o quadril em três lugares, passou maus bocados, sarou e ainda deu à luz três filhotes, duas fêmeas e um macho, que infelizmente morreu bem pequeno. Uma das filhotinhas se chama Pipa, outra fofura, que idolatrava a mãe.

Dia 3 de abril último, a Lilica, depois de muitas complicações por conta de um câncer de mama, já bem velhinha também, morreu. Eu nunca achei que fosse sentir tanto a morte de uma cachorrinha, mas senti. Aí fiz essa “pintura” aí do lado num programinha no iPhone. Não é nenhuma obra de arte, mas eu também não sou nenhum artista. Só fiz pra registrar a carinha dela e o potinho vermelho que eu nunca vou esquecer.

Seu latido desafinado e sua carinha esbranquiçada pela idade vão deixar saudades.

Beijo Lilica. Descanse em paz. :’)

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