Crônicas
Ouvindo música
1Não sei se é só comigo. Duvido que seja, na verdade. Mas eu tenho uma maneira diferente da maioria pra se relacionar com música. Música tem um papel importantíssimo na minha vida, porque eu acredito piamente que me ajudou a desenvolver certas partes do meu cérebro e da minha personalidade que seriam certamente mais… “pobres” — digamos — do que são hoje.
Mesmo assim, eu acho que ouço música de um jeito diferente. A maioria delas (as que eu gosto, principalmente) mexe MUITO comigo. Mas não é algo que transpareça. Exemplo: saiu o CD novo do Foo Fighters. Comprei, botei pra tocar e entrei em transe. Não canto, não danço, não faço microfone com caneta, não faço \m/ com os dedos. Só ouço.
E dá pra transportar esse exemplo pra outras situações. Como um show, um bar com música ao vivo… Tenho um pouco de birra de show ao vivo. Óbvio que é muito legal ver o artista que se curte tocando ao vivo. Mas eu quero ficar na minha, ouvindo a música, curtindo aquilo lá sem aquele bando de gente mal-educada pulando e se empurrando e desrespeitando o personal space alheio. Não sei se é pelo fato de eu tocar, gostar e conhecer guitarra, baixo e (às vezes) cantar, mas eu “curto” essas situações de uma maneira que deve parecer bizarra diferente pras pessoas que me cercam. Eu preferiria muito mais ficar absolutamente quieto — como fico, na maioria das vezes.
Sei lá, é minha maneira de apreciar uma música e um músico. Eu olho e vejo como o cara tá tocando, cantando, batucando; que acorde ele tá fazendo, o tipo de dedilhado, batida; o instrumento que ele tá usando, o jeito que fulano grita no microfone, sacode a guitarra, pisa nos pedais; que pedais ele tem, quais ele realmente usa… Milhares de pequenos detalhes que eu nem sei se outras pessoas observam. E eu desligo completamente por fora. Desligo de tal forma que se alguém falar comigo é capaz de eu não ouvir uma palavra. Eu tô ali, dentro de mim, curtindo a música que tá tocando. E de fora, alguém olhando pra mim invariavelmente diz: “Você não tá gostando?”.
Mas por dentro eu vibro DEMAIS. Acho que é isso que dizem que é ser introspectivo.
Me dá um trocado?
2Ainda na linha viagens, lembrei hoje de NY… Como esperam que você dê gorjeta pra TUDO e pra TODOS. Acho que é o mais irritante de lá, mas é a cultura deles, ok.
Mas antes da história, um pouco de contexto: eu tenho algumas manias. Lavo a mão muitas vezes, tenho uma pequena paranóia com limpeza e higiene, até abaixo a tampa do vaso antes de dar descarga pras nojeirinhas não espirrarem pra tudo quanto é lado no banheiro. Odeio pegar em maçaneta de banheiro depois de ter acabado de lavar a mão, porque como todo mundo sabe, tem muita gente porca que não lava a mão e, né, eca.
Contexto dado, voltemos a NY. Se você é como eu, você lê algo sobre o destino da viagem antes de ir pra lá, conversa com quem já foi, pra poder se situar um pouco sobre a cultura, o que é comum de se fazer no lugar, etc. E algo que todo mundo fala dos EUA é o lance da gorjeta, que tem uma gradação e que sempre deve ser pago, mesmo não estando descrito na conta e etc.
Aí você vai a um restaurante, paga a conta, curtiu o serviço, ok, 20%. Depois você vai a um bar, faz uma tab, chega no final, paga e se o serviço foi bom, de novo 20%. Ou se vai num bar e pede umas cervejas naquele esquema deles de pagar por pedido, vai dando 1 dólar por drink (remember, always tip your bartender), blablabla. Até aí, tudo ok, tudo normal, tudo fofinho.
Mas você decide ir a um club dançar. Abre uma tab e vai tomando umas cervejas. Naturalmente, chega a hora de ir ao banheiro. E tem um cara no banheiro. Trabalhando. Distribuindo balinhas e toalhas de papel. E, naturalmente, ele espera o quê? Gorjeta. Depois de go about my business no mictório (a.k.a. mijar), eu quero lavar a mão e tchau, certo? Errado.
Nessa situação:
- Você lava a mão e pega uma moeda, jogando todo o trabalho de lavar a mão no lixo;
- Você pega o dinheiro e dá pro cara antes de lavar a mão e o cara que se vire com o fato de você ter acabado de “coçar o saco ao natural”;
- Você ignora o infeliz. (Porque quem foi que teve a idéia genial de colocar um cara ali?!).
Resposta número três na cabeça, amigos. Vocês até podem inventar o número “4. pega o dinheiro antes de tudo e já dá pra ele”. Mas meu cérebro não teve tempo de processar a informação porque minha bexiga estava cheia. E digo mais: na mesma noite voltei três vezes ao banheiro e não dei gorjeta. Algo me diz que o dinheiro que esse cara ganha é bem sujo…
Trinta
0Faltou um post sobre os 30 anos.
É que não foi uma mudança crítica nem traumática: “pá, dia 3 de maio, agora tenho 30 anos [mundo desabando à minha volta].”
Foi a concretização de vários momentos na vida de um fulano em constante evolução e aprendizado. Um snapshot de um instante. Um momento pra parar, olhar pra dentro de si e pensar: “Taí, você se tornou um grande cara, continue assim! [tapinha nas próprias costas e um sorriso largo e satisfeito].”
Eu gosto de mim, do Felipe de hoje, desse cara que me tornei. Os anos redondos são importantes pra gente parar e dar essa geral interna, ver se tá tudo legal e tocar o resto da vida com a certeza de que se está no rumo certo, ou pelo menos engatilhado.
E pra falar, vim, vi, venci. Agora tenho 30, e daí? É igual ter 29 com um ano a mais? É! Mas mais legal, não sei por quê. É mais redondo! =)
“Então…” é o novo não
0Esse é um texto que eu havia escrito no blog antigo não faz muito tempo. Espero que gostem.
O sim continua ali, firme e forte.
O não… Então… já nem tanto.
Ninguém mais diz que não pode comparecer numa festa, num evento, num happy hour, numa inauguração de sex-shop pra cegos…
Ninguém mais marca encontro tendo a certeza de que vai conseguir mesmo jantar à luz de velas com a futura nora da própria mãe. Ou passa uma cantada sem tomar uma cortada seca.
Ninguém mais honra os compromissos como antigamente se fazia:“Bora?”
“Bora!” ou
“Não vai dar.”Hoje todo mundo fica com os pés atrás, não sei como tanta gente ainda não deu de cara no chão. A resposta pronta é sempre um “então…” assim, com reticências. Nunca se sabe o que vem depois, mas já dá pra perceber que a pessoa, se for fazer o que foi proposto, vai meio a contragosto, meio forçada. O mesmo diálogo acima, num futuro próximo, quando o bom e velho “não” cair em desuso, vai ser assim:
“Bora lá?”
“Não.”
“Hein?”
“Então…”
“Ah…”












